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Publicada em 06/11/2020 às 13:21
'Abri novamente a porta para a vida', diz Jorge Aragão após vencer Covid-19
'Abri novamente a porta para a vida', diz Jorge Aragão após vencer Covid-19
Foto: Leo Martins / Agência O Globo

Eu já coloquei 22 stents no peito, já fiz vários cateterismos. Mas mesmo sabendo que, em todas essas vezes, estavam abrindo meu coração, nada se compara ao susto que tomei agora em minha internação por Covid-19. Porque, ao operar o coração, você sabe que os médicos estão fazendo um procedimento que estudaram, lidando com algo que conhecem. Com o coronavírus é diferente, porque é algo totalmente desconhecido, não se sabe o impacto que o vírus vai ter sobre aquele organismo. E a medicina está aprendendo agora, durante o processo. As equipes médicas vão tentando entender como a doença está se manifestando naquele paciente. Eu saí de casa para o hospital achando que não voltaria.

Tudo começou num show que fiz em Natal, no Rio Grande do Norte, no dia 3 de outubro. Foi uma apresentação linda, a casa estava seguindo os protocolos de distanciamento, limitando o número de pessoas lá dentro, todo mundo se divertindo. Mas, no camarim, um dos músicos me disse que estava sentindo perda de olfato e paladar. Eu não cheguei a ficar muito perto dele. Logo depois ele testou positivo para a Covid-19. No domingo eu voltei para o Rio de Janeiro e na segunda-feira já comecei a sentir a garganta arranhando, uma tosse fraca. Fui medir a temperatura e vi que estava com um pouco de febre.

Corri para o mesmo hospital na Barra da Tijuca de onde já saí tantas vezes salvo. Nas outras vezes eu entrei lá como cardiopata. Mas desta vez era diferente. O medo que eu senti agora não se aproxima de nenhuma outra situação. Eles imediatamente desconfiaram de Covid, eu fiz o teste e foi confirmado. No dia seguinte, eu estava com baixa oxigenação e fiquei internado.

“EU JÁ CONHECIA VÁRIAS PESSOAS DAQUELA EQUIPE, PELO FATO DE JÁ TER SIDO INTERNADO ALI OUTRAS VEZES. A ÚNICA COISA QUE PEDI A ELAS FOI QUE, PELO AMOR DE DEUS, NÃO ME TIRASSEM O TELEFONE, ME DEIXASSEM COM UM SINALZINHO DE INTERNET”

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O problema é que essa é uma doença muito solitária. Assim que você é diagnosticado, cortam todo o seu acesso às outras pessoas. Você fica só com os profissionais de saúde, não pode ter mais ninguém a seu lado. Essa é uma situação muito triste, não poder receber visitas me afetou demais. Você olha para aqueles médicos e enfermeiros, todos de máscaras e óculos, totalmente paramentados. Eles tentam conversar, humanizar o ambiente. Mas é difícil.

Eu já conhecia várias pessoas daquela equipe, pelo fato de já ter sido internado ali outras vezes. A única coisa que pedi a elas foi que, pelo amor de Deus, não me tirassem o telefone, me deixassem com um sinalzinho de internet. Assim pude falar com minha família, dizer como estava, ouvir palavras de carinho. Ajudou muito.

Passei mais de 15 dias no hospital. Foi sofrido, porque tenho veias muito difíceis de serem encontradas pelas agulhas. Então tiveram de pegar uma veia em meu pescoço. Você fica muito debilitado. A respiração falha. Só o esforço de passar de uma maca para a outra já causa um cansaço extremo, como se você tivesse disputado uma corrida longa, completamente ofegante. Eu tenho muitas comorbidades, o que torna tudo mais complicado: minha idade já é de risco, sou gordo, tenho uma situação próxima de diabetes e sou cardiopata.

Neste momento, só penso em valorizar o trabalho desses profissionais de saúde que cuidaram de mim. Eles estão conseguindo recuperar muita gente, salvar muitas vidas. Eu via profissionais chorando, pelo esforço que estão fazendo nesse período, dando tudo de si. E o foco geral acaba sendo apenas no número de mortes, sem levar em conta todas as pessoas que eles têm conseguido mandar de volta para casa.

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fonte: https://epoca.globo.com/cultura/abri-novamente-porta-para-vida-diz-jorge-aragao-apos-vencer-covid-19-1-24731933

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